“Nosso pai nos espera no portão, com um boné de beisebol e óculos escuros. Corro para ele, passo meus braços ao redor dele e aperto. Ele não se move. Fica duro como uma estátua. Eu me sinto abraçando um soldado em turno de guarda. Desisto do abraço e digo a mim mesmo que essa foi a última tentativa”.
Esse depoimento foi escrito pelo tenista André Agassi, na página cento e quarenta da sua autobiografia. Esses dias soube que era comemorado o dia do abraço e imediatamente lembrei dessa cena, descrita no livro. Quando o li, anos atrás, não destaquei essa parte, então precisei reler algumas páginas até chegar na referida declaração.
Há, na obra, muitas outras menções acerca da relação do tenista com o pai, o qual era violento e obrigava Agassi, ainda criança, a bater centenas de bolas por dia, mesmo contra a vontade. A problemática convivência com o pai, talvez tenha contribuído para o histórico de depressão enfrentado pelo esportista.
Outro dia assisti a um vídeo de um neurologista, onde ele afirma que deixar de ganhar um abraço, promove no cérebro e no corpo, muito mais reações do que ganhar um abraço. Ou seja, a rejeição nos impacta muito mais que o afeto e os acontecimentos negativos são os que mais nos marcam.
E, justamente do abraço, que promove bem estar, que reduz a pressão arterial, que diminui a sensação de estresse e ansiedade, fomos privados durante a pandemia. Sequer poderemos consolar com um abraço, alguém que perdeu um ente querido. E será que conseguiremos compensar essa ausência de abraço? Ainda, será que distribuíamos os abraços que hoje gostaríamos de dar e não podemos?
Creio que essa privação pode nos levar a mais uma reflexão: do quanto deixamos de abraçar. Mas não falo só do contato físico em si, falo do cuidado, da escuta verdadeira, do respeito e de todos os sentimentos semelhantes ao ato de abrir os braços pra alguém. Talvez estejamos desprezando mais do que acolhendo e isso reflete na nossa sociedade, onde nem todos experimentam a sensação de pertencimento.
Pode ser que a falta de um abraço não impeça alguém de viver, de se tornar o número 1 do mundo ou de construir uma família. Todavia, saber que alguém foi menos feliz, mesmo que por alguns instantes, porque deixamos de praticar um gesto tão simples, é um mal irreparável.