Por Fernanda Ripol Cavalheiro

Enquanto leio a sobre as mais de mil mortes em um só dia, em razão do coronavírus, percebo que no instagram há pessoas que fazem uma espécie de comemoração quando atingem um determinado número de seguidores. Reflito. Não são só números, são pessoas. De um lado, as que deixaram de viver, do outro, as que poderão se distrair recebendo dicas do que comer, vestir, de como treinar ou manter a pele e os cabelos saudáveis.

No mesmo dia em que uma mãe perdeu o filho, porque não foi liberada do trabalho e teve que confiar a guarda dele por alguns minutos à patroa, um casal dava entrevista indignado porque o shopping da sua cidade estava fechado, contrariando um decreto estadual que permitia a abertura e isso os privou de fazer as compras que tinham programado.

Semana passada, um amigo escreveu um excelente texto sobre o cenário atual, falando de como a correria do cotidiano nos impede de avaliar nossas vidas, nossas escolhas e diz ao final que “espera que o saber viver depois da pandemia, seja saber existir considerando as reais necessidades, os sonhos, as lutas, os lugares imprescindíveis para que a vida faça sentido”.

E justamente essa correria foi a sugestão de tema para um novo texto dada por outro amigo, que comentou sobre a necessidade que criamos, de uma vida extremamente ocupada, como se isso fosse um meio garantido para obtermos sucesso. Concordo com ambos. Não acho que sucesso tenha a ver com uma agenda ocupada. E também acredito que existir seja algo muito mais significativo que simplesmente viver.

Boa parte dos meus empregos me exigiu oito ou mais horas diárias. Exerci, por quase dois anos, estágios simultâneos e, durante esse período, sequer tinha tempo para almoçar. Saía às sete da manhã e chegava depois da meia noite. Comecei a esquecer as coisas, cometer erros bobos, tinha sono durante a aula. Meu “sucesso” foi adoecer, tempos depois, física e mentalmente e então constatei que essa vida não fazia sentido.

Quando lembro daquele raciocínio “treine enquanto eles dormem” e já adianto que acho uma bobagem, fico imaginando qual a real intenção em provocar essa competição nas pessoas. Da mesma forma que questiono, se ao vivermos numa espécie de reality show virtual, onde, através de fotos, podemos comprovar nossa disciplina ao acordar cedo, praticar esportes, estudar e trabalhar de forma exaustiva estamos incentivando um possível “preguiçoso” a ocupar mais seu tempo, ou se estamos só querendo provar nosso “sucesso”.

O professor Leandro Karnal afirma em uma das suas palestras que o conceito de felicidade e sucesso tem significado muito distinto para as pessoas. Ele explica que para uns sucesso é ter muito dinheiro, mesmo que isso signifique menos tempo com a família, para outros é não ter tanto dinheiro mas ter tempo para a família, para alguns é ter saúde, pra outros é poder comer o que quiser. Não existe manual, cada um tem suas prioridades, sonhos e ambições.

Certamente a vida não é um romance, não são as fotos do instagram. Temos ciclos, somos felizes em alguns dias, nem tanto em outros. Enquanto uns estão morrendo, outros estão comemorando algo. Em 2013, quando meu afilhado estava prestes a completar um ano de idade, ocorreu aquele ataque químico na Síria resultando na morte de mais de quatrocentas crianças. Estávamos organizando a festinha dele e não deixamos de comemorar o aniversário, mas foi impossível não relacionar os fatos, tão contrastantes.

Enfim, não acho ruim que criemos as mais diversas formas de distrações, desde que isso não nos afaste do essencial. Precisamos do equilíbrio, não podemos resumir nossa vida em números, compromissos, planilhas, de forma excessivamente pragmática. Necessitamos também de sonhos, acreditar e construir um mundo melhor, um mundo onde sucesso não seja ter os bolsos tão cheios a ponto de distribuir por aí e sim onde nenhum ser humano precise da esmola do outro para viver.