ERA GROSSO, MAS UM FILÓSOFO CAMPEIRO! 

Por Dorotéo Fagundes de Abreu

Contarei em dois capítulos a história de um bravo, talentoso e humano, chamado Gildo de Freitas. Assim reconhecendo a sua grossura, porque não frequentou os bancos colegiais, o Grande Gildo não era um estupido, o que ele chamou de grossura era a falta de preparo intelecutual formal, porque informalmente por sua sensibilidade artística e poética, era um filósofo. E para atestar isso, basta que leiam suas letras musicadas em seus 15 discos gravados. Leovegildo de Freitas", nasceu em 19/06/1919 em Porto Alegre, (ás margens de estrada de chão batido, principal ligação da capital com o Litoral Norte), no Bairro Passo D’ Areia, então zona rural da capital, faria nesta semana 101 anos. Filho de uma ninhada de nove almas, do castelhano Vergílio José de Freitas e da gaúcha Georgina Santos de Freitas, Gildo aos 8 anos já puxava uma carreta carregada com frutas pela vizinhança. Esteve na escola apenas por seis meses, situada onde é hoje, o estádio do E. C. São José em Porto Alegre. Dês dos 12 anos, volta e meia fugia de casa e se metia numa cancha de carreira em Canoas, onde cuidava cavalos, cantava e tocava gaita, que aprendeu a manusear como autodidata.

 Aos 16 anos já era praticamente imbatível nos versos, com 18 anos já animava bailes em diversos locais da Região Metropolitana e um desses bailes, foi interrompido pela polícia sem motivo aparente. Seu amigo Otávio com 17 anos, responsável pelo evento com o Gildo, negaram-se parar o evento e o bochincho se formou, garrafas e cadeiras voaram para todos os lados e Otávio foi baleado. Ao ver o amigo ferido, para socorrer o parceiro, resolveu se entregar. Ledo engano, dominado, levou uma tunda dos brigadianos tirando a primeira das 40 cadeias que puxou na vida, e ao ser informado da morte de Otávio, revoltou-se tanto que jamais conseguiu encarar um homem fardado sem provocar, pegando fama de brigão, mas na verdade virou um justiceiro, não podia assistir uma injustiça que tomava partido pelos oprimidos.

 Politizado, assim que se tornou conhecido no meio regionalista se integrou aos comícios de campanha de Getúlio, Brizola, João Goulart, Alberto Pasqualini. A trova era sua arma para defender seu ponto de vista e do povo. Essa faceta social é bem visível nas músicas que compôs e nos improvisos, tal qual nas músicas “Vida Brava” em “Eu reconheço que sou um grosso”, “Infância Pobre”, dentre outras, tanto que em seus últimos anos de vida uma das atividades que ele mais praticava era a distribuição de comida aos pobres. Gildo mais tarde se tornou o maior repentista do Brasil, porque era hábil ao falar trovando, sobre o que conhecia, como filosofia campeira, boêmia e casos de amor, mas abordava com naturalidade assuntos aparentemente estranhos a ele, como espiritismo, misticismo, fantasmas, o mundo dos sonhos e até o movimento hippie.

 Em 1941 casa-se com dona Carminha, com quem teve 5 filhos, radicando-se em Canoas,  via que a década de 40 prometia muito sucesso, pois as trovas aqui no Rio Grande do Sul virou moda e dominavam festas, bailes, bares e programas de rádio, como os de Lauro Rodrigues, Rádio Gaúcha e Farroupilha o Grande Rodeio Coringa, iniciado por Paixão Cortes e Darcy Fagundes, e o trovador não parava de viajar, estava aonde o povo estava. Por volta de 1948/1949, por causa das encrencas com a polícia, Gildo desaparece de casa e chega a ser dado como morto, mas reaparece em longa temporada no Alegrete, de quem é cidadão honorário. Por lá em uma festa de eleição se relaciona com pessoas ilustres do Estado, como Salgado Filho, Rui Ramos, Dr. Salvador Pinheiro Machado. Salgado Filho, o fundador da VARIG, gostou tanto dele e de sua arte, que lhe franqueou passagens áreas para qualquer lugar do Brasil. Em 1950 conheceu pessoalmente Getúlio Vargas em São Borja, e por essa amizade a polícia para de persegui-lo, depois de ser detido umas quarenta vezes ao longo da sua vida, mas orgulhoso por jamais ter entrado em pé em uma cadeia. Até a semana que vem no segundo capitulo!