Por Fernanda Ripol Cavalheiro

A maioria das crianças geralmente apresenta aversões bem pontuais: comer, dormir e tomar banho, pelo menos as que eu conheço. Sempre noto um clima de tensão quando os pais determinam que façam alguma dessas três tarefas. Todavia, ultimamente, a lista do terror ganhou mais uma ocupação: ensino à distância.

Outro dia assisti a um vídeo de um pai, que, feito um gladiador, tentava conter o filho, que esperneava, chorava e, por fim, sem forças, implorava para que o pai não o submetesse àquela tortura de aula virtual. Constato que o processo de aprendizagem online tem sido um desafio não só para as crianças, mas para os pais também.

Lembrei imediatamente do homeschooling, um projeto de lei enviado ao Congresso pelo presidente Jair Bolsonaro. A medida, considerada uma das prioridades dos 100 dias de governo, permite que crianças e adolescentes sejam ensinados em casa e foi apresentada pelo Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, comandado pela pastora Damares, aquela que orienta que meninas devem vestir rosa.

Embora o STF já tenha decidido, em meados de 2018, que os pais não podem privar os filhos do ambiente escolar para ensiná-los exclusivamente em casa e que deixar de matricular crianças na escola poderia ser interpretado como abandono intelectual, muitas famílias estão praticando o homeschooling, o que considero bastante preocupante.

Há algumas semanas pude assistir a um debate interessantíssimo promovido pelo Tribunal de Contas aqui do Rio Grande do Sul, onde o pedagogo e doutor em educação Paulo Sérgio Focchi, explicou o papel da escola de educação infantil, que, de forma sucinta compreende acolher a criança no mundo e encorajá-la ensinando-a para que possa entender a sua relação com o mundo e com os outros.

Questiono como ficaria a questão da relação com o outro dentro desse sistema de educação doméstico? Que norte a criança ou o adolescente teria para a convivência coletiva? Entendo que é a justamente a troca com o outro que desperta as noções de justiça, respeito e solidariedade e que nenhuma relação poderia substituir, de forma eficaz, a interação promovida pela escola.

O artigo 205 da Constituição Federal prevê a educação como um dever do Estado e da família, a ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. Ou seja, há um esforço conjunto para a construção da pessoa preparando-a para o exercício da cidadania, não é uma atribuição exclusiva da família. É um retrocesso querer diminuir a grandiosidade que representa a figura do professor.

Igualmente, pensemos nos inúmeros riscos a que muitas crianças estão expostas ao permanecerem em casa. Sem dificuldade, já cito dois exemplos recentes, ocorridos durante a pandemia: o menino Rafael, de onze anos, morto pela mãe e Miguel, de cinco anos que caiu do nono andar de um prédio. Sem falar nos casos subnotificados de violência sexual, que em sua maior parte ocorrem dentro de casa.

Ou seja, ao invés de lutarmos pela melhoria da nossa educação pública, de trazermos os alunos que mais precisam para dentro das escolas, estamos partindo para a direção contrária. Qual a real intenção desse tipo de projeto? Limitar o pensamento das crianças e adolescentes ao que os pais entendem adequado?

Ano passado recebi um vídeo, onde o conhecido pastor evangélico e proprietário da Record, Edir Macedo, que, vale lembrar, também já foi denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, explica o motivo pelo qual não permite que as filhas façam faculdade: “para que elas não sejam a cabeça do casamento, posição que, segundo ele deve ser do homem”.

Não é difícil identificar a via para a qual querem nos levar. O caminho da escuridão, do retrocesso, onde as meninas estão todas vestidas de rosa, submissas, onde Malalas são perseguidas, da massificação alienada, da falta de consciência, da educação que não promove reflexão e, consequentemente incentiva atitudes nocivas e extremadas.

Há três dias vi muitas postagens em razão dos dezesseis anos da morte do Brizola. Meu pai, por diversas vezes parou para me explicar o que significavam os CIEPs, voltados à educação integral, projeto que me fascinava e me fazia uma admiradora do Leonel Brizola. Não vejo homenagem mais justa que mantermos vivo esse objetivo: de oferecer ao nosso povo um ensino público de qualidade.

A arma mais poderosa para mudar o mundo é a educação, que nunca esqueçamos disso.