Por Fernanda Ripol Cavalheiro

Há quem diga que variações frequentes e exageradas entre euforia e tristeza são um dos sintomas do transtorno bipolar. Acho que o ponto central está na palavra exagero ou talvez na instabilidade.  Dizem que o diagnóstico é feito com o paciente e um familiar. Deve ser porque, não raras vezes, é mais fácil alguém enxergar os transtornos do outro do que os próprios. Mas enfim, não tenho nenhuma propriedade para tratar do assunto, apenas li sobre isso e relacionei esta instabilidade de humor entre a euforia e tristeza com a paixão e o amor. Onde o amor é o equilíbrio a estabilidade e paixão a instabilidade.

Faz sentido? Não Sei. Mas tentarei explicar. Esses dias Carpinejar externalizou meu raciocínio ao diferenciar amor de paixão, escrevendo assim: “paixão é por acaso, amar é de propósito”. Acho que paixão é um estado, um momento, a fase da euforia. Amor é construção, é vontade, é escolha, é algo permanente, indiferente a emoções, e só assim é possível continuar amando mesmo estando triste. A paixão não aceita a tristeza, porque estar apaixonado significa o estágio da alegria e, se a tristeza se fizer presente a paixão acaba, porque são emoções incompatíveis, que não se mantêm ao mesmo tempo.

E se eu escolho amar, é pois uma ação da consciência, mais racional e menos instintiva. Por algum tempo eu achava o amor sem graça, sem intensidade e que a paixão era justamente a melhor parte. E pode ser, o problema é que ela tem prazo. Ninguém consegue viver apaixonado a vida toda, mas o amor é inesgotável, justamente por ser algo que depende da nossa escolha. Para Cortella paixão é a suspensão temporária do juízo, ela nos transtorna, nos consome, suspende o tempo e causa dependência. E o adequado seria domá-la e transformá-la em amor.

Concordo. Todavia, ao fazer essa transição a pessoa deve estar disposta a conviver com a responsabilidade, com o cuidado, com a tranquilidade- para alguns sinônimo de tédio, que o amor proporciona e isso, repito, deve ser uma escolha consciente. Caso contrário, quando a paixão acaba, se a pessoa constata que o objeto da paixão não é algo que deva ser elevado ao estágio de amor, melhor que passe sozinha pela fase da abstinência, até apaixonar-se novamente.

E pensando assim é que constatei, falando do amor entre duas pessoas, que não existe pessoa certa, embora isso pareça mais romântico. O que existe é a disponibilidade de amar e amar dá um trabalho do caramba. É cultivo, é esforço diário, de novo, é vontade. E ao contrário do que muitos pensam o amor é justamente o desapego, casamento, não é atração um pelo outro, é a disposição que duas pessoas possuem em se tornarem melhores e, com isso exercitarem o amor. E paixão? Paixão é carnaval, é alegria, euforia, mas todo carnaval tem seu fim. E você? O que vai fazer quando o carnaval acabar?


Amor é cuidado, paixão é descuido. Quem ama não desiste.