Por Fernanda Ripol    

Há dias em que a vontade de escrever se vai, assim como a esperança da gente. É difícil alimentar a criatividade em uma realidade tão dura e cruel como a que vivemos. Gostaria de não ter que falar no estupro da criança de dez anos de idade (que sofria violência desde os seis) e que infelizmente não se trata de um caso isolado no nosso país, mas, acho que o problema é justamente não falarmos, é o silêncio da vítima, é a nossa postura de fingir que não sabemos.

 E acho muito importante tratarmos dessa questão sim, mas não ficarmos restritos ao acontecimento, porque a gente foca muito na tragédia, nos culpados e nos esquecemos de olhar para a causa disso tudo, de fazermos uma autoanálise e entendermos onde estamos errando. Sim, nós, porque a corrupção existe, mas eu não sou corrupto, a violência só aumenta, mas eu sou da paz, a cada duas horas uma pessoa é estuprada no Rio Grande do Sul, mas eu não sou nem conheço nenhum estuprador. 

 E aí temos um grande problema: ou somos um bando de mentirosos ou somos coniventes. E por que aceitamos? Por que não falamos? Em uma pesquisa realizada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, com dados obtidos por meio de denúncias realizadas entre 1992 e 1998, constatou-se que em 83% dos casos de abuso sexual, este foi do tipo incestuoso e na maior parte dos casos as denúncias só aconteceram muitos anos depois. 

 E é esse o ponto que gostaria que focássemos. Repito: por que calamos? Por que aceitamos? Sobre o assunto, alguns psiquiatras revelam que a melhor maneira de se recuperar do abuso ou da violência sexual é falar. Mas o silêncio é justamente a postura habitual. Há também uma ausência significante de pesquisas que abordem o tema do ponto de vista da psicanálise, por exemplo, e inclusive já li que há uma predisposição na vítima em perpetuar o ciclo da violência ao qual foi submetida. Ou seja, o tema é de uma complexidade absurda e não queiramos nós, meros espectadores, ousar dar qualquer palpite furado de solução para o problema.

E aí os convido para mais uma reflexão: a cada caso que repercute na mídia, começam as propostas de castrar criminosos sexuais e de pena de morte. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de crimes não diminuiu nos estados em que a pena de morte é aplicada. Essas medidas não são impeditivas. Por favor, não entrem na cilada de soluções fáceis, principalmente se elas são oriundas de quem tem, por meio dos cargos, competência para agir e não faz nada. Não se constrói política pública da noite para o dia, sem trabalho diário e incansável. 

 Não precisamos de vingança, precisamos educar o ser humano para ser ser humano, algo que deveria ser essencial, mas não é. Escrevo muito sobre a nossa condição exclusiva de termos consciência, mas ela precisa ser desenvolvida. Estamos vivendo numa sociedade repleta de patologias e isso está se refletindo nas nossas relações, com os outros e conosco.

 “Olho por olho e o mundo ficará cego”, acho que já estamos. E pior, de forma consciente. Não se encontra justiça, verdade, respeito em um mundo de cegos. Contudo é preciso acreditar que a cegueira é temporária, temos que acreditar no nosso poder de consciência, de vontade, de que podemos mudar o que quisermos. Precisamos voltar a acreditar no ser humano. O mundo é bão e os bons ainda são a maioria, pode acreditar!