Seu Odilésio, eu não o conheço, mas gostaria que soubesse que depois que li uma reportagem sobre a barraca que o senhor construiu, em meio à lavoura, para que seu filho tivesse acesso ao sinal de internet e assim pudesse estudar, fiquei emocionada e esperançosa - são gestos assim que nos motivam a escrever, a ver um mundo menos cinza, a acreditar em tempos e pessoas melhores. Sei que não é um caso isolado, temos acompanhado esforços conjuntos de alunos, pais, professores, para que os estudos não sejam interrompidos durante a pandemia, todavia, acho que o senhor representa muito bem todas essas pessoas.

A imagem do Alan, que provavelmente já foi vista por milhares de pessoas, retrata muito mais que uma sala de aula improvisada. Para além das tábuas e lonas, existe algo que transcende o aspecto material, que ultrapassa gerações, é o recado de um pai para o filho, é uma lição de casa e de vida para todos nós: de que a nossa vontade é capaz de construir o que quisermos, de que as obras mais significativas são aquelas que vencem o tempo, que não podemos tocar, apenas sentir.

Quantas crianças nunca experimentaram essa mesma atenção e carinho, dispensados ao Alan? Quantas são submetidas ao trabalho infantil, abandono, violência, ao descaso? Quantas dessas mesmas crianças também acabaram se tornando pais omissos? Quantas não têm acesso à educação? Educação, um direito de natureza social, fundamental para a redução das desigualdades sociais, previsto na Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente, citado em vão por muitos e defendido, na prática, por poucos.

Observe novamente a imagem do menino Alan, atento ao caderno, com as mãos sobre a classe cedida pela escola. Ele certamente sente-se protegido, valorizado e, para isso, não exigiu uma cadeira estofada, ar-condicionado, ou um computador potente. Procurou apenas um lugar em que o sinal da internet funcionasse. A família, com os recursos disponíveis, efetivou o direito do filho, em meio a uma pandemia, no “meio do mato”, onde há muitas faltas, mas sobra o que é essencial.

Seu Odilésio, o senhor não construiu apenas uma sala de aula, o senhor é um arquiteto da vida, daqueles que não projetam muros, mas futuros. Que faz da caminhada um trajeto que vale a pena. Que consegue transformar sonhos em realidade, realidade que é o sonho de muitas crianças: o de poder estudar. Torço para que a vontade das nossas crianças seja sempre muito maior que as dificuldades, pois “onde há uma vontade, há um caminho” e o caminho, sem dúvida é a educação.