Rabisquei alguns possíveis trechos e temas de texto, geralmente faço isso quando o processo de escrita não se consolida de maneira natural. Os dias em que a inspiração demora a aparecer são os mais difíceis, mas são os que me causam maior sensação de dever cumprido. Como nem o café ou o ambiente devidamente preparado adiantaram, resolvi relaxar. Encostei-me para trás na cadeira, coloquei o álbum I’m With You, do Red Hot para tocar e de repente ao olhar para o meu quadro de formatura leio a frase que deu origem ao título do texto. Na mosca! Conseguiria encaixar todas as minhas ideias nessa mensagem que é um dos recados mais significantes que alguém já me dedicou.


Escuto Red Hot e lembro do primeiro show deles que fui, em 2011. Todos me disseram que era um ato de coragem ter ido sozinha ao Rock in Rio. Lógico que pesei que poderia passar alguns apertos por estar sozinha e realmente passei, mas isso jamais me impediria de ir. Ouvi a mesma coisa quando saí de casa aos dezessete anos, quando levei duas coronhadas na cabeça durante um assalto e dias depois estava percorrendo o mesmo trajeto até chegar ao meu apartamento. Tive medo? Lógico! Sinto medo todos os dias, medo de não ser compreendida, de não ser justa com as pessoas, de não terminar meus projetos... Mas há uma frase que levei por muitos anos na minha carteira que foi levada e que dizia: “e se der medo, vai com medo mesmo”.


A vida nos exige mesmo coragem, todos os dias. É preciso coragem para agir, coragem, do latim coractium, ação do coração. Para que o mal seja mantido basta a nossa omissão, mas o bem exige ação, o bem exige coragem, exige a ação do nosso coração. É preciso coragem para não calarmos, para combatermos injustiças, para vivermos em um país que não permite a participação e inclusão de todos, para ter um propósito de servir enquanto alguns só pensam em servir a si próprios. É preciso de coragem para vencer a resistência, os maus hábitos, a desesperança, a falta de amor e de respeito, a vaidade.


 “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza”. Sábio Guimarães Rosa! Coragem para viver e coragem para não morrer em vida. E quando ela (a coragem) faltar, a gente olha para o lado e pega emprestado de quem a tenha em forma de exemplo para nos oferecer. Já tive e tenho a oportunidade de aprender com as pessoas todos os dias. Algumas lições levarei para sempre: a vitória do meu irmão sobre uma lesão medular, que o fez levantar de uma cadeira de rodas e a demonstração de amor da minha mãe ao doar um rim ao meu tio.


A alegria no meio da tristeza, difícil né? Difícil falar do que não é agradável, do que não é bonito. Ano passado descobri que dois pequenos tumores estavam querendo me destruir. No início eles quase conseguiram, pois o medo de morrer me impediu de viver por alguns dias. Até que decidi ensinar para aquelas aberrações quem mandava em quem. Lembrei dos exemplos, das pessoas que passaram por coisas piores, dos que descobrem um câncer em estágio avançado e não têm a chance que eu tive. Pensei que mais do que nunca eu precisava da coragem que todos diziam que eu tinha. Foi o momento em que consegui enxergar a tal alegria no meio da tristeza, o aprendizado no meio da dificuldade e gostaria que ninguém precisasse que o medo da morte ensinasse a viver. O que a vida quer da gente é coragem, coragem. Não importa para onde as circunstâncias queiram nos levar, os corajosos constroem o seu próprio caminho!