Por Dorotéo Fagundes

Quem é que na juventude até os anos 80 não teve a linda experiência de dar ou receber uma serenata? Costume que a modernidade desbancou quase que por completo, pois deve haver ainda por aí, um veterano apaixonado, ensinando algum guri de espírito aventureiro a dar serenata. Bem aventurados os seresteiros que por todo o Brasil há mais de 100 anos desenvolveram esse costume romântico, cheio de boas intenções, que em tributo ao grande seresteiro, Ex-Presidente da República - Juscelino Kubitschek, conferiram a dada de seu nascimento, 12 de setembro, como o Dia Nacional da Seresta. A seresta é do bem e cheia de magia, surge do impulso dos que nos finais de semana, cedo se abancam num bar para a boemia e depois da meia noite, saem para expressar seu bem querer, dedicando pela janela uma canção, um verso, uma flor ao seu cambicho. Com o tempo os seresteiros de cada estado brasileiro, criaram a sua moda de encantamento pelas serestas, que podem ser programadas para reverenciar amigos de aniversário, conquistar a prenda de seu agrado, sempre pegando o alvo de surpresa.

Até meus 25 anos fiz muita serenata, inclusive em Porto Alegre! Em Uruguaiana na década de 70, nós tínhamos um grupo profissional de seresteiros natos, seres calmos, discretos, ordeiros e todos amigos do trago. O grupo não pode passar de 5 pessoas, dá bagunça, e cada qual tem sua função: um a de pesquisar na cidade os conhecidos que por razões diversas merecem a distinção da serenata naquele fim de semana; outro é o músico de repertório pronto aos temas do coração; outro é o motorista, geralmente dono do carro; outro é o oferecedor, aquele que após a cantoria dedica a música e por fim um convidado, acompanhante.

Toda serenata gera uma história para quem dá e para quem recebe, geralmente boa, divertida, dês do sucesso com o propósito, a disparada dos cachorros da casa, a xingada ciumenta do pai da moça, pela audácia da investida, dentre outros casos. * Certa feita em Uruguaiana, nas férias grande, num domingo de noite, meu primo Zecão Claus, o tio Toio Fagundes e Eu, estávamos reunidos num boteco em muita viola, ceva e canto, quando na prosa veio o tema dos cambichos e o Zecão, emocionado sentenciou, quando fechar o bolicho vamos dar uma seresta pra Dirce. Não demorou muito, saímos em direção a casa da nada mais, nada menos que a Rainha do Colégio União! Lá, na janela, entoamos o celebre Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro; Feito a dedicatória pelo Zecão, vimos que abriu-se a porta, (pensamos é ela), e saiu o que não esperávamos, o pai da moça; um moreno baixo, forte como sapato de padre, que meio brabo indagou-nos: Vocês não tem o que fazer, dando serenata na madrugada de segunda-feira? O meu tio, baita gozador, com cara de chancho vesgo respondeu, “casualmente não”, e saímos de mansinho pra não levar uns laçaços do véio! * De serenata campeira tem uma muito engraçada: Meu pai tinha chácara na Barragem Sanchuri, e depois da janta, o meu Tio Tonho que era capataz da lavoura, disse ao meu pai, che o fulano está de aniversário, vamos lá dar uma serenata pra ele! O pai me olhou e disse, pega o violão guri e saímos alegres na noite sem lua, atalhando campo em fila indiana, com o tio Toio que conhecia o caminho, ia na frente levando o violão, seguido pelo meu irmão Bento Fagundes de Abreu, eu e logo o pai na retaguarda. Depois de andar uns mil metros noite adentro, sumiu a voz do meu tio, o Bento sumiu da minha frente e eu parei na boca de um buraco de uns 2 metros de fundura, agarrado pelo meu pai, enquanto o Tonho e Bento, estavam embolados no buraco em gargalhadas. Para tira-los tivemos que fazer uma corda improvisada com os cintos. Terminando ali a serenata, porque rebentou umas cordas do violão, e voltamos pra casa achando graça do azar. * Lembro também que na década de 80, na Serra Gaúcha, depois de uma show em Gramado, o Odom Saraiva Dutra, para estender a noitada, teve a ideia de dar uma serenata num sítio de um colega. A noite era negra como os olhos de Maria! Depois de andar por umas bibocas, em estrada de chão, Odom apagou a luz do carro, andou uns metros e parou dizendo, é aqui gurizada, pode abrir o bico Dorotéo que eu ofereço. Apeamos do carro naquela escuridão total, de violão em punho larguei uma milonga bonita! No fim do lamento o Odom disse: “Oferecemos essa serenata ao amigo fulano de tal, esperando por um trago!” Ficamos aguardando e como reinou silêncio, alguém cochichou, não se acordaram, toca outra mais forte! Então larguei um chamamé - Barranca e Fronteira, no fim, de novo o Odom ofereceu falando mais alto: “Essa serenata é pra o fulano de tal, te levanta dorminhoco que nós estamos loucos de sede!” E nada, nem barulho de folhas, então pedi para acenderem os faróis do carro, quando vimos que estávamos a frente de um paredão de uns 20 metros de altura, da pedreira da cidade. Daí voltamos pra o hotel em gargalhadas, gozando de nós mesmos pelo fiasco! 

Meus caros, histórias de serenatas, devem existir tantas que daria pra escrever um lindo livro, em nome do romantismo e da amizade.  

Para pensar: Ser boêmio é uma coisa, mas seresteiro é ser um boêmio diferente!