Dinheiro não traz felicidade, dizem por aí. Contudo, a falta dele também não promove bem-estar, isso é fato. Lendo sobre a comemoração, no dia de hoje, do internacional da felicidade, lembrei-me do filme que deu título ao texto, no qual Will Smith interpreta Chris Gardner, um famoso e também milionário empresário norte-americano, mas que chegou a dormir nas ruas com o filho. Há pouco tempo, virou notícia a história da Ana Paula, que também tem permanecido com as filhas numa calçada do Rio de Janeiro, “conservando o espaço limpo”, conforme foi ressaltado na matéria.

Quando entrevistada, a mãe relatou, entre as tantas outras dificuldades, que não conseguia mais emprego em razão de ter perdido quase todos os dentes- curiosamente, hoje também é o dia mundial da saúde bucal. Não é difícil imaginar o caminho de escassez percorrido por alguém que passa a morar numa calçada com as filhas, que não tem nada, nem os dentes. Embora histórias como a de Chris Gardner possam nos trazer esperança, sabemos que é uma feliz exceção. Dificilmente saberemos que um ex-morador de rua virou milionário. Não é pessimismo é noção da realidade.

E não seja ingênuo de acreditar que a vitória de Gardner se deu em razão dos Estados Unidos, “país mais rico do mundo”, promover igualdade de oportunidades, isso é uma ilusão. Não é opinião pessoal, é estatística: os EUA têm umas das taxas mais baixas de mobilidade social. Lá, assim como aqui no Brasil, há uma perpetuação da pobreza, que é retratada no preconceito de classe: os ricos são trabalhadores, empreendedores e patriotas, que impulsionam o país, já os pobres são desocupados, acomodados e culpados pela sua própria pobreza. O discurso conhecido nosso, de que os benefícios sociais são basicamente uma forma de dependência, também é utilizado lá.

Gostaria de saber qual a outra forma de incentivo, diversa das formas básicas de proteção social, para quem não tem acesso à saúde, educação e trabalho? Como é esse ensinar a pescar que muitos defendem? O que sugerir, a uma pessoa que não arruma emprego porque perdeu os dentes, para estar em igualdade de condições com alguém que tem uma cama, banho quente, acesso ao dentista e ao essencial: um teto digno? Como diria Clarice Lispector, é preciso calçar o sapato do outro antes de julgar a vida alheia. Palpitamos sem ter o mínimo de conhecimento sobre a dor do outro e pior, ainda bostejamos que a pessoa é infeliz porque quer.

Sim, dinheiro não traz felicidade. É possível ver sorrisos em rostos famintos, é possível observar estados de alegria em meio à pobreza, mas isso não é felicidade, é sobrevivência. Quem só sobrevive não sonha e é desumano não sermos incentivadores de sonhos. Ajudamos a construir um mundo em que a pobreza é uma das causas da falta de felicidade e precisamos, de forma urgente, lutar por igualdade, é o mínimo. Felicidade alheia não incomoda, o que perturba é a felicidade egoísta, aquela indiferente à tristeza do outro. Sejamos multiplicadores de felicidade, essa é a melhor forma de ser feliz, pode ter certeza.