Gente, pessoa, ser humano, tão difícil confiar, mais natural apontar o dedo a estender a mão. Pudera, diante das tantas crueldades de autoria do homem, repetimos freneticamente que bicho é melhor que gente. Estamos sempre à espreita do pecador e basta que algum mal se instaure para que possamos apontá-lo. Nossa sede de “justiça” se resume a desejo de vingança. Não nos concentramos na reparação dos danos, tampouco em preveni-los.

Quando a desgraça não nos afeta diretamente, somos os jurados, caso nos atinja somos as grandes vítimas, mas nunca, em hipótese alguma, nos colocamos no banco dos réus e lá só pararemos por “culpa” de outrem e injustamente, é claro. E assim seguimos, como se a vida fosse um constante Tribunal do Júri.

Criminoso, bandido, ladrão. O condenado não é mais pessoa, gente, ser humano, não tem mais nome. O processo de estigmatização é automático e eterno. O rótulo acompanhará o desgraçado por toda a vida e assim o transformamos naquilo que queremos. E quando o fazemos, afastamos do sujeito toda e qualquer possibilidade de resgate ou encontro com aquilo que justamente o humanizaria.

Evidente a complexidade do ato de perdoar, especialmente diante de um ato cruel. Contudo, ou caminhamos todos juntos, vítimas, réus, jurados e juízes ou o círculo da violência se repetirá incansavelmente. Quando perdi um grande amigo, vítima de homicídio, desabafei com a minha mãe: “quero todos os responsáveis morram, um por um”. Ela, sempre coerente me respondeu: “entendo a tua dor, é a mesma minha, mas isso não trará quem gostaríamos de volta”.

Esse raciocínio, tão óbvio, mas evidentemente distante de ser assimilado por quem sofre uma perda violenta, me acompanha desde então. Sempre digo que viver é exercício, árduo na maior parte das vezes, pois o caminho da evolução é sempre o mais trabalhoso e nos exige uma coragem nem sempre acessível. Esse ano, morreu em São Paulo, o empresário Ota, para quem não lembra ele perdoou o assassino de seu filho e, após a tragédia, ocorrida em 1997, fundou o Instituto Yves Ota, dedicado ao trabalho comunitário.

Presenciamos e experimentamos tempos bem difíceis, e, se não for para dirigirmos palavras de amor e compreensão, melhor calarmos e esse é para mim outro grande desafio diário. Por isso, desejo a todos nós que, independente das circunstâncias, consigamos  enfrentar nossas batalhas, perdas e infelicidades com sorriso no rosto e amor no coração, pois de ódio já estamos exaustos e esse sentimento é contrário à direção da resolução dos conflitos.

 E, por falar em amor, como amanhã é dia das mães, espero que possamos ser melhores mães, pais e filhos, que nos empenhemos em praticar o amor no seu real significado, para que assim nenhuma mãe tenha que perder um filho por ato violento de outro, que nenhuma mãe tenha que experimentar ver um filho preso e que nenhum filho parta precocemente por falta de amor de quem deveria protegê-lo. Amar também é um ato de resistência e nós resistiremos! 

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