As noções de bom ou mau variam conforme as perspectivas de cada ser humano. Já fiquei muito tempo estudando a frase de Rousseau e, audácia a minha, ousei discordar. Não acho que a máxima “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe” seja uma verdade incontestável. Creio que o homem venha ao mundo neutro e que vivendo se desenvolva. Também não acredito em pessoas totalmente boas ou ruins. Durante nossa existência teremos episódios que colocarão à prova nossos valores e, dependendo das nossas escolhas, vamos moldando e construindo nosso caráter, pois ele não “vem de berço”.

Assim, durante a nossa trajetória, cometeremos diversos erros e, caso vez ou outra nos deixarmos corromper é porque nossa base é fraca ou tampouco foi edificada. Há poucos dias recebi de um amigo, trechos de uma palestra da professora Lucia Helena Galvão e uma parte tratava justamente da construção do caráter, com base no entendimento platônico. Falava não sobre o bom ou mau caráter, mas na construção dos valores, pois quando somos domados por nossos impulsos, nosso caráter não está bem construído. Fez todo sentido para mim, classificamos o tempo todo o caráter das pessoas e a maioria sequer o tem.

Exemplo claro e recente: desde ontem acompanhamos entristecidos a falta de oxigênio em Manaus. Um crime de omissão absurdo e injustificável contra a saúde do povo brasileiro. Um reflexo do desvio das verbas públicas que deveriam ter sido utilizadas para o enfrentamento da pandemia, da falta de gestão e de responsabilidade. Dentro desse cenário, em que as escolhas políticas não são voltadas ao bem comum, não é raro ouvirmos que ao entrar para a política todos se corrompem. Então quer dizer que a política é feita de homens bons que foram desvirtuados pelo sistema político?

Na política e na vida existem sempre caminhos distintos. Assim como o Cortella, afirmo que a decisão de ser ladrão é muito anterior à ocasião. A todo momento temos escolhas a fazer, temos que vencer os instintos, o que nos leva a ferir os outros e a nós mesmos. É exercício diário e contínuo, justamente para nos preparamos para o momento das escolhas. E embora a oferta para que sejamos egoístas, materialistas, corruptos e desonestos sejam muitas, a opção de ter uma postura firme e justa diante da vida é de foro íntimo. Caso estejamos vivendo nas trevas, a escolha sempre foi nossa.

O homem nasce bom? Diversas pesquisas acerca do cérebro humano, no tocante à agressividade, demonstram que alterações genéticas as quais culminam numa menor conexão com certas áreas do cérebro, podem desencadear uma tendência maior à violência. Ou seja, alguns podem nascer mais ou menos agressivos. Contudo, entendo que tanto a tendência à agressividade quanto à desonestidade são tratáveis. Individualmente, estamos todos em contínua evolução. Não sei se nasci boa ou má, o que sei é que a vida nos dá a oportunidade de uma existência completa ou vazia, a escolha é de cada um. Alguns viverão muito tempo, terão os bolsos cheios, mas ainda sim continuarão vazios, da mesma forma que aqui chegaram.